As visitas mediadas situam-se no amplo projeto de fazer do estudo da cidade uma “viagem formativa” a ser experimentada por todos. Essa expressão envolve uma dimensão teórica e metafórica. Como se sabe, a palavra alemã Bildung significa formação, configuração. Porém, no século XVIII, ela se tornou uma das noções mais significativas por remeter à natureza do processo educativo. Como observa Suarez (2005, p. 193)
“Termo de caráter bastante dinâmico, Bildung se impõe a partir da segunda metade do século XVIII, exprimindo, ao mesmo tempo, o elemento definidor, o processo e o resultado da cultura”.
Apesar de seu sentido bastante amplo, a Bildung possui uma forte conotação pedagógica e sinaliza “[…] o elemento definidor, o processo e o resultado da cultura” (SUAREZ, 2005, p. 193). O termo ganha, assim, uma dupla dimensão, organicamente articulada. Por um lado, aponta para a cultura como resultado e, nesse sentido, abarca o patrimônio histórico-social material e simbólico produzido pela humanidade no seu conjunto. Por outro, remete à cultura como processo, como formação cultural dos sujeitos. O termo agrega, assim, uma dimensão objetiva e subjetiva; afinal, a formação é o processo de constituição da subjetividade por meio da apropriação do patrimônio cultural objetivo. Essa constituição envolve dois momentos antagônicos e complementares. Por um lado, ela demanda que o sujeito se aproprie do universo cultural existente. Por outro, essa incorporação permite que novas produções sejam criadas.
Suarez (2005) chama atenção para algumas dimensões da Bildung. Dentre elas, duas nos parecem muito salutares para guiar o que chamamos de “viagem formativa”. A Bildung é trabalho. O trabalho forma, modela; o trabalho é mediação ou agir formativo; apresenta-se como um processo prático no qual, pela ação sobre o mundo, forma-se o objeto (mundo humanizado) e o próprio sujeito que trabalha como humano. Segundo Suarez (2005), a Bildung também é viagem. Se recorremos aos dicionários, a viagem é descrita, em geral, como um deslocamento para se chegar a um lugar distante. Quando afirmamos que as visitas mediadas se situam em um contexto maior de uma “viagem formativa”, não indicamos apenas que fomentaremos um caminhar na cidade, um passeio intencionalmente organizado em alguns lugares citadinos.
A viagem possui uma nuança metafórica de evocar a saída do familiar, da vida cotidiana e ordinária, para visitar o extraordinário. Isso significa, segundo Suarez (2005), que a viagem tem como lei a alteridade; aventurar-se ao encontro com a alteridade e consigo mesmo. Em outros termos, ao experimentar o diverso de si, esse “lugar” distante do que lhe é mais habitual, o viajante tem a chance de retornar e compreender-se melhor, de modo mais enriquecido: formação e autoformação se dão as mãos.
Assim, a potência da metáfora da viagem está em evocar mudança, transformação, movimento. Nesse sentido, não residiria o sucesso do trabalho educativo em nos transformar em viajantes? Por isso, “A ‘grande viagem’ que caracteriza Bildung não consiste em ir a um lugar qualquer, não importa aonde, mas, sim, lá onde nos possamos formar e educar” (SUAREZ, 2005, p. 195).
Portanto, as visitas mediadas não representam apenas a ida a lugares da cidade; pretendem fomentar uma nova formação subjetiva, cultural, a partir do olhar apurado que problematiza os conflitos que se materializam na cidade. Mostram-se, desse modo, como momento privilegiado no qual temos a cidade diante de nós: ela nos confronta e nós a interpelamos; com ela dialogamos, perscrutamos suas existências históricas. Ao fazer isso, abre-se, em nós, a chance de reconstruí-la, mudar a cidade na qual habitamos e a cidade que em nós habita.
As viagens formativas são momentos de integração e de relação/experiências com espaços da cidade na busca pela ampliação de oportunidades para o desenvolvimento de nossa humanidade. Essa relação exige a reeducação do olhar para observar, indagar os espaços da cidade como resultados do trabalho que inscreve marcas das existências individuais e coletivas. Nesse tipo de proposição, Freire (2007, p. 26) pontua que:
“No fundo, a tarefa educativa das cidades se realiza também através do tratamento de sua memória e sua memória não apenas guarda, mas reproduz, estende, comunica-se às gerações que chegam. Seus museus, seus centros de cultura, de arte são a alma viva do ímpeto criador, dos sinais de aventura do espírito. Falam de épocas diferentes, de apogeu, de decadência, de crises, da força condicionante das condições materiais”.
Nessa perspectiva, os espaços da cidade estão impregnados de elementos que comunicam a aventura humana de constituição do fenômeno da vida urbana. Assim, a leitura da cidade deve ser formativa, especialmente, pela compreensão da composição de sua grafia urbana, com suas ruas, mercados, praças, igrejas, monumentos, palácios, museus, trânsito, escolas, cultura, imagens, enfim, com a diversidade dos elementos constituintes e suas contradições.
As viagens formativas têm potencial para provocar alterações no modo de compreender a cidade, favorecendo a apropriação de conteúdos singulares. Assim, os sujeitos ao conhecerem espaços da cidade e ao refletirem sobre os conteúdos explicitados durante a viagem formativa, não são mais os mesmos de quando a iniciaram. De modo similar, podemos inferir que as viagens formativas podem ser pensadas em analogia com os cinco tipos de viajantes descritos por Nietzsche (2008), ao mostrar que os de grau mais elevado têm necessidade de dar vida ao que foi visto em obras e ações.
“Entre os viajantes devemos distinguir cinco graus: os do primeiro, o mais baixo, são aqueles que viajam e são vistos são viajados, na verdade, e praticamente cegos; os do grau seguinte veem a si mesmos no mundo, realmente; os terceiros vivenciam algo como consequência do que veem; os quartos assimilam o vivenciado e o carregam consigo; há, por fim, alguns indivíduos de elevada energia, que, após terem vivenciado e assimilado o que foi visto, têm de necessariamente dar-lhe vida de novo, em obras e ações, tão logo retornem para casa. De modo igual a esses cinco tipos de viajantes vão todos os homens pela jornada da vida, os mais baixos como seres puramente passivos, os mais elevados como os que agem e se exprimem inteiramente, sem nenhum resíduo de eventos internos” (NIETZCHE, 2008, p. 109).
Texto acima extraído de: DELLA FONTE, Sandra Soares; CÔCO, Dilza; CHISTÉ, Priscila de Souza Chisté. Educação na cidade e humanidades: abordagens metodológicas utilizadas pelo GEPECH. In: SANTOS, Bis dos Santos; CARVALHO, Letícia Queiroz de. Metodologias alternativas no ensino de Letras e Humanidades. Vitória: 1. ed. – Vitória : Instituto Federal do Espírito Santo, 2019.
Referências:
FREIRE, P. Política e educação. São Paulo: Vila das Letras, 2007.
NIETZSCHE, F. Humano, demasiado humano II. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
Viagem Formativa do 2º período de Pedagogia – Ifes
No dia 16 de outubro de 2019 a turma do 2º Período de Pedagogia participou de uma viagem formativa ao Sítio Histórico da Prainha de Vila Velha. Participaram da visita as(os) alunas(os):
- Alanna Bregicks de Souza
- Amanda Miguel Patrocínio
- Anna Beatriz Souza Góes
- Barbara Elis Coelho Damasceno
- Barbara Lopes Martins
- Carine Cabreira Reckel
- Darshini Moura Alves
- David Nascimento Leoncio
- Fernanda de Souza Soares
- Giovanna Mascaranhas Cardoso
- Jennifer Belarmino Andrade
- Jhulia Maretto Garbelotto
- Joab Abrantes da Silva
- João Maranho Silveira
- Kauane Wentler Rodrigues
- Lara Machado Figueiredo
- Luana Lopes Cavotti
- Luiza Schaeffer Fraga
- Márcia Adriana Ribeiro Barboza Maciel
- Márcio Natã Martins Barbosa
- Maria Auxiliadora da Silva Gomes
- Natasha da Cruz Barros
- Nathalia Gonçalves Sperandio Cott
- Patrícia Elias Brandão
- Raquel Augusta Barbosa Vindilino
- Sabrina Schade Garcia de Assis
- Samara Pinudo Pasoline
- Sarah Guimarães Cunha
- Taynam Lopes Martins
- Thaís Ramos do Nascimento
- Thalia Souza Ribeiro


As(o) professoras(r) participantes foram:
Priscila de Souza Chisté Leite
Maria Geralda Oliver Rosa
Ernesto Charpinel
Viagem Formativa – Prainha

O roteiro realizado teve como objetivo mostrar para as licenciandas e licenciandos um modo alternativo de conhecer um sítio histórico. A ideia foi percorrer as ruas e monumentos tentando analisá-los para além das suas aparências. Tentamos revelar as marcas da colonização e da religiosidade que foram preservadas até os dias de hoje.
A seguir apresentaremos alguns depoimentos das licenciandas sobre a participação na viagem formativa.
“Gostei muito dessa aula fora do espaço formal da sala, sendo possível aprender de forma descontraída novos conhecimentos, principalmente os relacionados à artes, desde o barroco ao rococó.
Neste tipo de abordagem, revisitamos a história sob outro ponto de vista que vai além da historicidade oficial conforme já havíamos discutido em diversas aulas, não só de história com o professor Ernesto, mas também com a professora Priscila. Senti-me como se estivesse presente no momento em que os fatos ocorreram, observando os acontecimentos sob a ótica das etnias que não foram representadas naqueles monumentos.
Através da observação atenta daqueles espaços, é possível enxergar além da aparência, e notar a influência que as relações de poder exercem sobre a humanidade até hoje, onde a visão dos opressores é sempre retratada com grandes feitos e obras exuberantes, enquanto que a visão dos oprimidos raramente são representadas e quando feitas, são para exibir sua condição e não para enaltece-los como acontece com a classe dominante” (Marcia Adriana Ribeiro Barboza Maciel).
Eu adorei!! Foi uma viagem bastante importante, porque através dela, eu passei a ter uma visão crítica a cerca da história dos locais visitados. Eu tirei uma foto na janela do convento, coisa todo bom mineiro faz. Essa aula foi incrível, pois trouxe contribuição para a minha interação com o meio onde estou vivendo (Thalia Souza Ribeiro) ❤️
Foi incrível, eu já tinha ido varias vezes nos centros historicos de Vila Velha porém não tinha conhecimento sobre a verdeira historia, e o poder que aqueles locais representam para nossa sociedade (Bárbara Elis Coelho Damaceno).
A viagem formativa é uma forma a mais de complementarmos nossa formação principalmente no que diz respeito a apropriação cultural. Acredito que com as explicações dadas do outro lado da história, e dos mínimos detalhes das construções dos monumentos e dos quadros, podemos ter uma outra percepção sobre o que já está empregado na nossa cabeça. Além disso, é de suma importância que tenhamos esse tipo de aula, uma vez que o estado é composto por diversas belezas e histórias que muitas vezes não temos a chance de conhecer ou sabermos um pouco afundo, e, com a realização desse tipo de aula podemos ter essa chance. Foi muito bom! (Luana Lopes Cavotti).
A viagem formativa para mim foi uma experiência incrível. Como não sou daqui, só conhecia o lado turístico e religioso daquela região. Mas, com as preciosas explicações da professora Priscila e com apoio dos professores Ernesto e Geralda, pude conhecer a fundo um pouco mais da história do Espírito Santo, até então desconhecida para mim. Tenho certeza que a partir dela, sempre que revisitar a Prainha, olharei de maneira diferente e especial para um lugar carregado de histórias (Natasha da Cruz Barros).
Com a visitação ao sitio histórico de vila velha e seus principais pontos, tive a possibilidade de ver com outros olhos e ponto de vista, histórias ate então relatadas de uma forma, no qual pude analisar a verdadeira historia de ate mesmo “personagens principais” que são ate hoje ocultos mas que mais contribuíram com a nossa historia, apesar de tanto sofrimento. Foi essa a sensação que tive, de dor e sofrimento, deslumbre pela arte e arquitetura e ao mesmo tempo revolta. Sempre tive essa visão, sempre debati esses assuntos olhando o outro lado, mas ver e ter essa oportunidade de ter a professora nos relatando tudo isso me deu ainda mais certeza. muito grata por nos proporcionar essa experiencia (Carine Cabreira Reckel).
Viagem formativa foi maravilhosa, me sinto privilegiada por morar em Vila Velha, e puder contemplar tamanha beleza, e além disso, a união da turma nessa viagem gostei muito. Em especial estar com os melhores professores do IFES: Ernesto, Geralda e Priscila (maravilhosos). E por todos os lugares onde passamos a beleza refletiva, a subida para dentro do templo do convento foi cansativa mas, a visão lá de cima compensa muito, visual deslumbrante!! Valeu a pena, e que venham mais trabalhos desses (Patrícia Elias Brandão).
Minhas impressões para esta viagem formativa foram as melhores possíveis. Eu que moro há tantos anos em Vila Velha, pude ver minha cidade sob um novo olhar, fora de um contexto apenas voltado ao cotidiano. Deixo meus mais sinceros elogios aos professores envolvidos nessa proposta, Geralda e Ernesto, mas em especial a Priscila, que com um olhar delicado e ao mesmo tempo científico, nos apresentou detalhadamente cada parte da Prainha, porém não de forma meramente superficial, mas sim profunda, possibilitando compreender a história local sob a visão do colonizado e não do colonizador. Espero poder fazer muito mais viagens como essa futuramente (Jennifer Berlarmino Andrade).
Foi uma experiência maravilhosa! Como já visitei centenas de vezes aquele local, imaginei que não encontraria nada de novo. Só que com o acompanhamento histórico da nossa professora Priscila, parecia que era a primeira vez que eu ia. Detalhes que nunca tinha percebido, histórias que não imaginava que tivesse acontecido. Foi incrível para mim ver o sítio histórico com novos olhares. Irá ficar marcado para sempre. Obrigada Priscila por essa oportunidade (Maria Auxiliadora da Silva Gomes).